Afinal o que é Software Livre?
Falar em liberdade não é tão simples, mas ao tratarmos do software livre possuímos algumas referências bem objetivas para nos guiar. De acordo com o próprio Richard Stallman (foto ao lado), criador da Free Software Foundation, o software livre é mais antigo do que a própria ideia de software proprietário. Ele nos conta, em um de seus textos autobiográficos, que há algumas décadas era muito comum compartilhar as informações necessárias à continuidade do desenvolvimento de projetos na área da computação. É claro que percebemos isso em nosso simples dia-a-dia, lembrando que muitas das coisas que hoje não podemos mais possuir, em algum lugar do passado eram públicas, disponíveis a todos. Isso vale para a água que bebemos ou os combustíveis que usamos. Ao ser visto apenas como uma forma de enriquecimento o software, similarmente a outras coisas, passou por um processo de privatização que impedia as pessoas de terem acesso ao conjunto de códigos que o fazem funcionar e, em consequência disso, de poderem realizar outras ações básicas como copiar, distribuir e melhorar o software por elas adquiridos. De modo simples essas são as liberdades fundamentais defendidas pelos movimentos de defesa do software livre. O interessante nesta questão é desfazer a ideia de que são os “sofwares que são ou não livre” mas colocar a ênfase nas liberdades que nós devemos possuir sobre eles. Já imaginou se proibíssemos as pessoas de fazer uso livre das coisas que adquirem, como encurtar uma roupa ou pôr mais sal na comida que compram?
Linux e Software Livre
Uma das coisas que muitas pessoas confundem é a definição do próprio software que utilizam. Isso advém do grande esforço feito pelas empresas para passar a ideia de que o único ou melhor caminho para resolver um determinado problema ou suprir uma necessidade é contratar seus serviços ou adquirir seu produto. Por isso criam em nós uma associação direta entre uma determinada situação e o produto ou serviço oferecido por elas. “Em um calor de rachar você só pode se refrescar de verdade com a cerveja 'Y'”. Durante muito tempo a empresa de Bill Gates construiu uma grande dependência nas pessoas, fazendo-as esquecer que podem se utilizar de outros sistemas operacionais ou programas para fazer de modo melhor, mais rápido ou apenas diferente as mesmas coisas que fazem no Windows. O impacto dessa estratégia é tão grande que mesmo utilizando software livre as pessoas ainda duvidam de que ali estejam diante da liberdade, pois nunca passou pelas suas cabeças a possibilidade de ter um programa que lhes permitissem isso. O fato é que a ideia de software livre até os anos 90 não possuía nenhuma representação forte no imaginário das pessoas, o que era necessário para ele continuar se expandindo no tipo de sociedade que vivemos. A maior representação do software livre veio em 1991 quando Linus Torvalds (hoje quarentão) criou o sistema operacional Linux e, de quebra, ainda forneceu um Pinguim como ícone desta inovação. Linux na verdade, é o sistema operacional livre mais popular do mundo, mas funciona a partir de um conjunto de outros software livres que, antes dele, já vinham sendo desenvolvidos. Hoje, até em sistemas operacionais proprietários como o MacOS ou o Windows rodam softwares livres. Esse é o caso da suíte de aplicativos para escritório OpenOffice.org (programa original do qual no Brasil fazemos o BrOffice.org) que roda em sistemas operacionais proprietários apesar de ser software livre. É certo que a prática de rodar programas livres sob plataformas proprietárias não é muito aceita entre os mais entusiastas do software livre, mas também é certo que fornece o primeiro contato com este tipo de produto a pessoas que talvez nunca migrariam seus sistemas operacionais por completo de uma só vez.
A quem interessa o Software Livre?
Esta é uma boa pergunta a se fazer, quando se vive em um mundo repleto de interesses comerciais, financeiros. A produção de software livre é muito diversa, se orientando aos mais estranhos interesses e motivações. Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que nenhum comportamento é desinteressado, embora não é verdade que as pessoas precisem de um mesmo interesse para fazerem o que se propõem. O movimento em defesa do software livre, que hoje já conta com inúmeros grupos espalhados pelo mundo, começou restrito a desenvolvedores que precisavam fazer correções nos programas para que eles funcionassem melhor. Esta foi a situação de Richard Stallman quando precisou encontrar uma maneira de ligar seu computador há uma impressora. O que isso quer dizer é que o software livre satisfaz a inúmeras de nossas necessidades quando nos permite resolver nossos problemas mais específicos. Um grande interesse que as pessoas também possuem é em adquirir produtos sem os custos elevados dos softwares proprietários. Sem haver esse tipo de custo chegamos a outra questão importante: é possível ganhar dinheiro com software livre? E a resposta é bem clara e objetiva: sim. Em nenhum momento o software livre se opõem a ideia de ser recompensado pelo próprio trabalho. Dessa existem empresas especializadas em software livre, que veem seus produtos se desenvolverem rapidamente sendo eles fruto de um trabalho colaborativo. Uma forma muito interessante de sobreviver com o software livre são as capacitações, consultorias e outro grande número de atividades vinculadas a aprendizagem da tecnologia, que, sem usar de técnicas maliciosas como a comercialização das licenças de uso, desenvolvem a produção de uma forma que não se oponha ao desenvolvimento humano. Por fim interessa muito a pessoas como eu, saber que o uso do software livre fortalece novas formas de produzir, compreender e de se relacionar com a tecnologia. A ênfase que gosto de fornecer às minhas justificativas repousam em uma concepção político-libertária, que enxergam no software livre uma oportunidade de se transformar não apenas a maneira de usar as coisas, mas também a maneira de viver em sociedade.
Além do software
O movimento de defesa do software livre se ampliou de tal modo que contagiou os mais diversos campos da expressão humana. Podemos ouvir agora falar-se em música livre, ciência livre, tecnologias livres e algumas outras liberdades derivadas da própria ideia de software livre. Sabe-se que não é a toa que usamos a palavra liberdade e que, sem medo de lutar, procuramos antes de tudo defender as pessoas do cerceamento de seus direitos. Software livre é tecnologia com valores humanos.